Choque de estupidez

26/12/2009

O Globo, Segundo Caderno, 24.12.2009

por Cora Rónai

Escrevo sobre a Lagoa, mas a situação é a mesma em toda a cidade. Onde quer que haja prédios antigos, há problemas de estacionamento. A razão não chega a ser mistério: quando a maioria desses prédios foi construída, carro era um luxo dispensável. A cidade era razoavelmente bem servida de ônibus, bondes e lotações, e se havia distância entre os pontos e as casas dos seus usuários, havia também segurança para que eles pudessem cobrir essa distância a pé, a qualquer hora do dia ou da noite.

Hoje o transporte público do Rio é uma piada, em que pesem inaugurações festivas de metrô, e ninguém mais está garantido, mesmo no percurso de uns poucos quarteirões.

É por isso que fico furiosa quando vejo a prefeitura rebocando carros a três por quatro em lugares onde eles não atrapalham ninguém, sobretudo na calada da noite. Não há nada de “educativo” na medida, que não favorece ninguém, exceto os donos dos reboques, os cofres da prefeitura e quem quer que lucre financeiramente com isso.

Uma cidade que funciona deve oferecer alternativas viáveis aos seus habitantes antes de partir para a estupidez. Em vez de rebocar os carros de moradores de prédios antigos, que não têm culpa das levas de corrupção municipal que permitiram a construção de tantos edifícios sem garagem, as autoridades deviam estudar soluções reais e bem intencionadas para o problema. Do jeito que está, o cidadão que paga IPTU e IPVA, mas que só entra nos planos do governo na hora do reboque, está sendo triplamente lesado.

Na semana passada a editoria Rio trouxe duas manchetes muito eloquentes a respeito da situação aqui perto de casa. A primeira, na página 13, dizia “Choque de ordem reboca carros na Lagoa”. A segunda, na página 21, dizia “Motoristas são assaltados em sinais da Lagoa”. Entre outras coisas, a matéria sobre os reboques informava que a operação foi iniciada nos primeiros minutos da madrugada, e que apenas em frente ao número 2.142 foram levados oitos automóveis.

Ninguém merece assaltos e reboques simultâneos, mas é a isso que estamos condenados no circo do senhor Paes. Dá para acreditar na boa fé de uma operação de reboque que vai ao ar depois de meia-noite?! A sua finalidade, está claro, não é desimpedir a passagem para os pedestres, até porque ninguém tem mais coragem de andar pelas ruas da cidade de madrugada.

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